sexta-feira, 13 de junho de 2008

O Pânico do Último Minuto



Jornalista vive de prazos e, geralmente, são para ontem. Já tive stress, fobia, perda de ar e de cabelos por causa de prazos impossíveis, irrealizáveis. A melhor coisa que me aconteceu para superar o pânico do último minuto, foi fazer boletins para o rádio. Sei que texto jornalístico de rádio pode parecer que não exige muita imaginação e inspiração, mas vai tentar resumir no máximo cinco linhas os motivos do impeachment do Collor e você vai entender que é necessário, sim, muita criatividade, vocabulário e jogo de cintura.

Por quase um ano, fiquei responsável por fazer boletins informativos para os locutores da emissora de rádio em que eu trabalhava. Os boletins eram lidos de hora em hora. E cada boletim tinha uma nota de notícias locais, uma nacional e outra internacional. E não era só escrever.

Até que se criasse um pasta comum para que eu pudesse salvar na rede de computadores o arquivo, eu tinha que imprimir e correr até o estúdio(que ficava a uns dez metros e sete portas depois da redação), com dez minutos antes da hora cheia, para dar tempo ao locutor de ler a nota antes que ela fosse ao ar.
Isto sim, não era o pânico do último minuto, mas o pânico de minuto a minuto.

As notas nacionais e internacionais eram fáceis. Só procurar na internet, colocar o texto em formato radiofônico e tudo bem. Já as locais, minha chefe fazia questão que fossem notas quentes, cavadas. Eu tinha uma lista enorme de locais para ligar e procurar notícias. Desde as delegacias de polícia e IML (cansei de noticiar corpos encontrados à beira da rodovia), até gabinetes políticos.
No princípio, era o caos.

Tomei tanta bronca por estourar o prazo, que fiquei calejada. Mas com o tempo, peguei algumas manhas, ganhei agilidade e já gastava apenas vinte minutos para procurar as notícias, redigir e enviar o texto para o locutor.


Mas jornalistas são pessoas criativas, ousadas, inteligentes, não é? Droga. Comentei com um locutor que faltava mais cultura nesta emissora. Precisavam de umas notas mais leves, sobre o que está passando no cinema, que peças estão para estrear, coisas do tipo. Na senama seguinte, minha chefe:


- Rafaela, comentaram que você teve uma ótima idéia para os informativos.


- Mesmo?


- É. Notas de cultura, né?


- Isto - eu, vibrando por dentro. Cultura era o meu forte.


- Gostei. Mas os boletins eu quero que mantenha o mesmo padrão. Quero só que você agora, além dos boletins, faça notinhas curtas de cultura a cada vinte minutos, pode ser?


Agora sim, isto é pânico!!! Mas não posso reclamar. Desde então, prazos de dias para mim são como passear no parque e é sempre no último minuto que aparece a nota (inspiração) mais quente!


Mais do mesmo por Ferreira Neto
Mais do mesmo por Daianne Fernandes



1 comentários:

Srta. Scarpin disse...

Isso que é viver no limite. risos. Eu acho que foi por conta desse caos que deixei de lado trabalho em agência de publicidade. É show! Mas com certeza não faria bem para meu já, estresse excessivo.

: )

[ ],