Se pode sussurrar, fale. Se pode falar, não grite. Escreva.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ricos e pobres


Ultimamente, com alguns apertos financeiros (quase rotineiros, aliás) tenho reparado com mais atenção as diferenças entre ricos e pobres. Apesar do propagado aumento da renda do brasileiro médio, dinheiro a mais na conta bancária não tira de nós, pobres, alguns velhos hábitos de sobrevivência.












Falando das diferenças entre as classes, tem algumas que são clássicas, como o tamanho das casas, por exemplo. Entendo porque tem tanto rico sofrendo de solidão. Dá para ficar meses sem ver ninguém da família numa casa de 27 cômodos, com os jardins, playground, piscina, área de churrasqueira, quadra de tênis e de futebol society onde o rico mora com a esposa e o filho único, ou no máximo, um casal de filhos, cercados por um dezena de empregados pobres.

Já o pobre nunca sofrerá deste mal. É todo mundo muito unido. Os cinco filhos dividem felizes o quarto 4 m x4 m com três beliches, sobrando assim um cantinho para a avó (geralmente a mãe da mulher do casal), que dorme na parte de baixo do beliche do caçula. Os 65 metros quadrados de área interna são facilmente duplicados em área de lazer aos sábados e domingos (porque durante a semana serve para secar a roupa do varal), com um churrascão na laje, com direito a piscina de plástico de mil litros e os vizinhos para contribuir com a carne e a cerveja.

O que me faz pensar nas organizações das festas.

A rica, resolve fazer uma reunião íntima com as amigas num domingo à tarde. Pega o seu smartphone:

- Ângela, você tem o telefone da Margareth? Queria o contato do buffet que ela contratou para a última reunião do Clube do Livro, porque tinha um canapé de siri que não pode faltar no nosso encontro de domingo!


A pobre pega o telefone pré-pago:

- Rosicleide, minha filha, liga na Francyelly e diz pra ela trazer fraldinha pro strogonoff, que aprendi um truque que faz a carne ficar igual filé, menina! Aproveita e liga pra Chica e fala pra ela deixar de ser mão de vaca e comprar Martini ao invés de cerveja, porque domingo é pra ser coisa chique! E liga na Jacinta, porque meu crédito tá acabando e diz pra não esquecer o refrigerante dos meninos.

Depois da festa, a rica:

- Nossa, aquele canapé de siri me deu uma indigestão... e agora fiquei com enxaqueca.

A pobre:

- Menina, sei lá que desgraça a Tonha colocou na porra daquela fraudinha pra ela ficar macia daquele jeito, mas sei que o troço me deu um piriri, uma caganeira que me deixou a noite inteira de rainha. E quando consegui sair do vaso, bateu aquela puta dor de cabeça!

E eis que chegamos ao campo da saúde. A rica, com enxaqueca, nem sai de casa. Liga para o médico particular, que vai à sua residência e prescreve drogas de última geração.

A pobre também não se aperta. Toma logo dois analgésicos com Água Rabelo e tá tudo resolvido.










Algumas comparações:

  • Rico não tem sarna. Tem escabiose.
  • Rico não fica louco. Sofre de transtorno mental.
  • Rico não tem preguiça. Sofre de estress.
  • Filho de rico não tem vermes. Alguém já ouviu falar que filho de rico tem que tomar "lombrigueiro"? Licor de Cacau Xavier?
  • Filho de rico não tem frescura para comer. Tem transtorno alimentar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Que tradução é esta?

Intercine nem sempre é uma boa companhia para as noites de insônia. Não sei quem faz a seleção de filmes para serem "escolhidos". Sempre nos dão a "opção" de dois filmes péssimos junto com um mais ou menos, que acaba sendo o eleito.Será que eles (os programadores) acreditam mesmo que estão nos enganando?

Outra pergunta que eu queria fazer é: alguém realmente liga para votar no filme do Intercine? Qual é o número de ligações que definem a exibição? Três? Vinte? Cento e oitenta milhões? eu já tentei ligar e ouvi "ligações encerradas" antes de ver a vinheta "Ligações encerradas" na TV.

Mas enfim. Este nem é o tema deste post. É que foi numa noite de insônia, assistindo Intercine que me deu o estalo de escrever sobre algo que há muito tempo me incomoda: a tradução (se é que dá para chamar assim) dos títulos dos filmes. Me diz como "The Sweetest things" ("As coisas mais doces" - filme que vi durante a insônia), se transforma em "Tudo pra ficar com ele"?!

Será também que é muito difícil que "Peter's Friends" (um dos meus filmes favoritos) se torne só "Os amigos de Peter"? Quem que decide que este filme vai se chamar "Para o resto de nossas vidas"?

Recentemente assisti também um filme lindo com Dustin Hoffman e Emma Thompson, cujo o título original é "Last chance Harvey" e ficou "Tinha que ser você".

E tem mais bizarrices destas por aí afora. O Ferreira Neto me contou uma que eu nem tinha me tocado, mas que também é uma loucura. "Terminator" virou "Exterminador". E, como ficaria muito estranho traduzir para "Terminador", achei razoável que alguém colocasse o título de "Exterminador". Mas para quê emendar um "Do futuro" no nome do filme?

Daí, o filme faz sucesso, o Arnold Schwarzenegger fica preso ao personagem, faz um novo filme, chamado "Total Recall" (Lembrança total) que no Brasil vira "O Vingador do futuro", que não tem absolutamente nada a ver com o "Exterminador", mas a publicidade implícita pode ser uma justificativa. Não uma boa.

E aí está, pelo menos para mim, o motivo para que mudem os nomes dos filmes bruscamente. A publicidade. Tornar o nome do filme mais "vendável" no Brasil. Outra teoria é que seja quem for que ache a necessidade de mudar os nomes, acha que os brasileiros são burros demais para enteder um título que permaneça no original, substimam nossa inteligência. Não acho que o "Exterminador" tivesse ficado como "Terminator" ia dificultar nosso entendimento do enrredo. Mas assim, não teriam vendido "O Vingador do futuro". No fim, tudo é só mercado.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Acampamento de guerra

O que fazer com uma criança de seis anos, hiperativa, sozinha, sem irmãos e sem vizinhos nas 48 horas de sábado e domingo? Criei um acampamento no fundo do quintal. E, às vezes, tenho raiva da minha criatividade. Para tudo dar certo, delimitei como cinco o número de crianças com que (achei) conseguiria lidar, contando meu filho. Daí para frente foi preciso planejamento.

Os tempos modernos e a correria do dia a dia tirou das escolas particulares as tais reuniões de pais e professores que eu me lembro que minha mãe ia. Descobri que estas reuniões vão além de ajudar no desenvolvimento pedagógico da escola. É lá que eu ficaria sabendo quem é a mãe do Pedro, o pai do João e com quem falar quando o Tiago der outro cascudo no meu filho. Mas como eu não conhecia as mães e as crianças, só por nomes, mandei um convite-bilhete, explicando o acampamento, dando os meus contatos e pedindo os contatos das mães para que, com elas, pudesse organizar os detalhes.

Enquanto esperava os contatos, pedi emprestada duas barracas, uma de dois lugares e uma de quatro. Limpei o quintal, tirei de lá tudo o que fosse potencialmente perigoso, como tábuas e tijolos. No segundo dia depois dos bilhetes, as mãe começam a ligar.

Primeira barreira. Um dos coleguinhas convidados tem uma dieta rígida, de pão integral, frutas e água de coco, o que mudava um pouco o meu menu de mashmallows na fogueira, pão com presunto e queijo e biscoitos. Mas tudo pelo bem do acampamento. Controlaria os mashmallows, aumentaria as frutas consumidas, o pão seria integral e os biscoitos não teriam gorduras trans.

A segunda mãe me liga: “Os meninos podem levar videogame?”. Uai, claro que não! É um acampamento. Tá, é no quintal, mas se estivéssemos no mato, não teria televisão, nem tomada para ligar o aparelho, certo? A criança pega o telefone: “Tia, então posso levar meu PSP?”

Sábado, 16 horas, chega a primeira criança e 15 minutos depois, estavam todas lá. Acho que as mães queriam mesmo uma noite de folga. Mobilizo as crianças para montar as barracas. Quero saber de onde os fabricantes de barracas tiram as medidas das pessoas que cabem dentro de seus produtos, porque a de duas pessoas mal cabia uma criança e a de quatro, coube três meninos de 7 anos com aperto.

Às 21h45, houve uma baixa: a criança que queria levar o playstation para o acampamento, fez uma mobilização, quis voltar para dentro de casa e ver filmes e foi prontamente podado antes que criasse um motim. Mas não conseguiu vencer a abstinência e ligou para que a mãe fosse buscá-lo. Pobre mãe. Chegou em casa, vestida pra festa que teve que cancelar pelo vício do filho de oito anos. Algumas crianças não estão preparadas para voltar no tempo.

(Crônica minha publicada no Jornal do Tocantins do dia 22/10/2009)

 
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