terça-feira, 13 de julho de 2010

Mais que ouvir, internalizar

 

0,,10534208,00 Não precisa inventar geringonça para internalizar o que ouve. Só esteja disposto a aprender

Na minha arrogância da adolescência ouvi muitos conselhos sábios de amigos, professores, mas, principalmente, da minha família. Mas na falsa ilusão da autossuficiência, do “eu me basto”, ignorei solenemente muitos deles, que hoje vejo, são extremamente úteis. Alguns tinham a ver com moral e bons costumes, dentro de um padrão que até hoje não sou de acordo. Mas muitos eram de natureza até bem prática, que me ajudaria no dia-a-dia da vida adulta.

O que mais me marcou foi minha avó falando: Rafaela, é preciso saber fazer para saber mandar. Para entender a frase, vou ao contexto.

50shousewife Sempre que ia passar férias na casa de minha avó, ela tentava me ensinar a cozinhar, a arrumar casa, a costurar. Tarefas que eu, na minha ignorância, achava que só serviam para me transformar em “mulherzinha”. De cima dos meus 15, 16 anos, eu achava que minha avó, com a ajuda da minha mãe, queria me transformar na dona de casa perfeita, com todos os pré-requisitos para ser uma boa esposa, objetivo este que nunca fez parte dos meus sonhos. Achava que ela queria me enquadrar dentro do padrão em que ela foi criada, há 50 anos atrás. Na mesma ignorância, acreditava que uma pessoa mais velha não poderia ter pensamentos e atitudes contemporâneos.

Para mim era ofensivo qualquer aprendizado neste sentido. Fui criada com empregadas que faziam tudo. Nunca tinha lavado roupa, ou dado faxina em casa. E argumentava: Quando eu for adulta, vou trabalhar e ter dinheiro para pagar empregados. Estou aqui morrendo de rir só de escrever isto. Como a gente é bobo. Minha avó contra-argumentava com a tal frase. “É preciso saber fazer para saber mandar”. E ainda completava: não estou dizendo que vai casar e ser Amélia, Rafaela. Estou te ensinando coisas que te ajudarão simplesmente se você for morar sozinha. Eu, claro, não estava nem aí.

Morgana Até que me caiu nas mãos um livro que me influenciou muito: As Brumas de Avalon. Morgana não seria Morgana se não tivesse passado pelo crivo de Viviane que fez com ela na Ilha de Avalon a mesma coisa que minha avô fazia comigo nas férias: ensinar a fazer para saber mandar. Tornar-se senhora de si mesma. Ter independência. Só então fui valorizar o que minha avó passava. É preciso um ídolo para confirmar para a gente o que veríamos com facilidade se estivéssemos dispostos a aprender Com qualquer pessoa, com qualquer situação.

O que me fez lembrar desta história foi que nesta segunda-feira, fui à palestra “Segredos da Autoestima - Como alcançá-la e mantê-la”, promovida pela ONG Brahma Kumaris (site aqui para mais detalhes) e ministrada por Meera Nagananda, bacharel em Ciências pela Universidade de Misore, Índia. De modo geral, a autoestima está baseada no autoconhecimento e na aceitação.

Há algum tempo que ouço do Ferreira Neto (do Blog Ainda Sem Nome): Rafaela, você tem que parar de julgar a si mesma. Tem que aceitar seus erros, aprender com eles. Tem que se dar um tapinha nas costas de vez em quando e dizer “Pôxa, mandei bem!”. Ouvia aquilo, mas não internalizava. De novo (a parte de aprender com os erros agora está bem grifada), precisei ouvir uma guru que veio do outro lado do mundo, dos confins da Índia para internalizar um aprendizado que um amigo me passava na maior das boas intenções e nas mesmas palavras. Então, como sugerido na palestra, estar aberto a aprender não é só um sinal de sabedoria, mas de esperteza, praticidade e economia de tempo. Um velho provérbio chinês para encerrar este post comprido: Não tem como colocar mais líquido em um copo cheio.

2 comentários:

Criska disse...

Concordo! Acho que sobrevivi porque aprendi a fazer. Obrigada por esse post!

Ferreira Neto disse...

Orgulhoso, babão e lacrimejante aqui...